Bebê de passagem

15 de julho de 2020 / papo-de-mae

Tenho sentido uma movimentação estranha nos últimos dias, uma tensão no ar. Minha mãe diz pra eu ficar tranquilo que vai dar tudo certo.

Há quem me chame de feto (talvez pra diminuir minha importância). Há quem diga até que ainda não tenho alma. Mas sou um bebê de 100 gr, do tamanho da palma de uma mão. Tenho o corpinho todo formado, meu coração bate 155 vezes por minuto, posso mexer meus braços e pernas, embora tenha menos reflexos que um bebê normal. O que me faz diferente é que meu cérebro não tem capa de proteção e, sem esta capa, ele vai morrer aos poucos, ainda no ventre da minha mãe, afetado pelo líquido amniótico.

Percebo uns apertos, minha conchinha tão confortável começa a se desfazer. Sinto um puxão e, de repente, escorrego pra fora. Uma luz forte, os sons estão mais altos, frio. De repente, fica tudo calmo outra vez.

(Thomás “nasceu” em 15 de julho de 2017 à 01:38, com 15 semanas e 3 dias de gestação. Guardei esse relato por três anos, agora me deu vontade de contar.)

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A formação da vida humana é tão complexa, existem tantas possibilidades de algo dar errado! Um simples defeito no fechamento do tubo neural e…pronto, a calota craniana do bebê não se forma. A isso se dá o nome de anencefalia.

O que é a anecefalia

Por um defeito de fechamento do tubo neural, que costuma ocorrer na 4ª semana de gestação, a calota craniana do bebê não é formada. Ele tem cérebro, mas sem a carapaça de proteção, o cérebro é danificado pelo próprio líquido amniótico, ainda durante a gestação. Mesmo que a gestação perdure até o final, após o nascimento, o bebê não tem nenhuma chance de sobreviver, alguns morrem no parto, outros sobrevivem por minutos, horas ou dias. Não há perspectiva de vida para um bebê anencéfalo.

A medicina ainda não sabe exatamente o que causa a anencefalia, há um fator genético que contribui para a anomalia, além de fatores ambientais. O gene mais estudado até o momento é o gene MTHFR, que dá as instruções do corpo para fazer uma proteína usada para processar o folato vitamínico (também chamado de vitamina B9). Sabe-se que a falta de ácido fólico contribui para o surgimento da má-formação cerebral. Por isso, hoje, todas as grávidas recebem a recomendação de tomar ácido fólico, se possível antes da gravidez até os três primeiros meses. Outros possíveis fatores de risco materno para o desenvolvimento da anencefalia incluem gestação tardia, diabetes, obesidade, exposição ao calor elevado (como febre ou uso de uma banheira de hidromassagem ou sauna) no início da gravidez e o uso de certos medicamentos anti-convulsões durante a gravidez.

A incidência global de anencefalia é de 1 a cada 100 mil gestações, mas no Brasil esse número chega a 1 em 1000 gestações, ou 18 casos para cada 10.000 nascidos vivos.1

Entre os fatores ambientais considerados influentes estão radiações, vírus, administrações de determinadas drogas durante o período gestacional, contato direto com produtos tóxicos, sendo o fator de risco mais importante, a ausência de ácido fólico no metabolismo das mães gestantes, pode ter relação com o alto índice de desnutrição dos países subdesenvolvidos.2

1 Dados Febrasgo (atualiz. 12/2008)
2
Revista Neurociências 2010 / 18(2)

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